No meu casamento vai ter coxinha

Estava conversando com uma amiga dia desses e bati o martelo: no meu casamento vai ter coxinha.

No dela também teve. Somos coxinhófilas, as duas, e foi um momento muito feliz do evento. Consegui a proeza de ter, no mesmo prato, bolo de morango e coxinhas.

Olha, dona do buffet, a senhora pode chamar de pingos de frango, de coxinha gourmet, mas as coisas são o que são. E, no meu casamento, coxinha vai ser coxinha. Pode ter cavier, apesar de sinceramente achar caviar uma bela porcaria. Pode ter camarão – para os outros, porque eu mesma detesto coisas do mar. Mas vai ter, sim, todas as coisas que eu gosto (e o noivo também). Então vai ter que ter coxinha e brigadeiro, e eu sinceramente não estou nem aí se é chique ou não – tudo isso faz parte do que eu sou e, afinal de contas, a festa é minha, e não sua, senhora dona do buffet.

Você passa 20, 25, 30 anos sendo quem você é. Comendo sua coxinha, vestindo quanto você veste, calçando sapatos coloridos, usando seu batom vermelho, ouvindo as músicas que você gosta. Por que em uma noite tudo tem que ser completamente diferente?

Por que você não pode ser quem você é no seu próprio casamento?

“Ah, eu quero fazer a festa dos meus sonhos, quero virar a Cinderela, quero reproduzir o casamento real no salão de festas”. Cada um com seu cada qual. Mas hoje, lendo essa matéria no Jezebel, sobre dietas pré-casamento, só consegui pensar que:

1. No meu casamento vai ter coxinha, sim.

2. Se entro numa loja (esqueci, chique é atelier e não loja) e alguém ousar me dizer para emagrecer para caber no vestido eu não só troco de vestido como de loja.

Wedding Diets Are Evil and Just Make Women Feel Like Shit

Em 1978

Minha mãe tinha 24 anos.

Sua melhor amiga na época, sua melhor amiga até hoje, posta numa rede social uma foto das duas.

- Mãe, adorei a foto. Você estava lindíssima.

(Amo superlativos).

- Eu ODIEI aquela foto. Estava gorda e barriguda.

(Ela provavelmente vestia 38 ou 40).

Concluímos, portanto, que visões distorcidas de si mesmo são extremamente comuns nesta família.

Mas é fato que meu braço está enorme e não uso mais regatas até que eles virem gravetos.

Lavar louça é vida, apontam estudos

Uma das minhas leituras favoritas na internet nos últimos tempos é o Be More With Less. A autora, Courtney Carver, tem 43 anos, é mãe de uma adolescente, tem esclerose múltipla (“a doença não me define, nem o meu blog, mas tem um grande impacto na minha vida”, ela diz) e fala dos benefícios do minimalismo, no sentido mais amplo da palavra – estabelecer prioridades, consumir menos, gastar menos, dever menos, ser mais feliz. Juro, é agradável.

No post mais recente, ela fala sobre a necessidade de simplificarmos a vida e sairmos da roda-viva do dia a dia. E também dá alguns conselhos que, para minha surpresa, comprovam o que popularmente se diz por aí: falta louça para lavar no mundo.

Os conselhos de Courtney: 

  • “If you get lost, do the laundry. You know how to do that. You don’t need input or direction. Just do it.
  • If you feel scattered, wash the dishes. Turn off your dishwasher and wash each dish as if it’s the most important thing you have to do.
  • If your mind is racing, hang out by the spin cycle. Let the background noise quiet your mind.
  • If you are anxious, sweep the floor. Sweep up your worry along with the dust (and dog hair in my case).
  • When things get messy, shine your sink. If your to-do list is out of control or your mind is full of idea and you don’t know where to start, clean your sink”.

Eu acrescentaria o “se estiver com raiva, esfregue o box do seu banheiro com X-14 e Sapólio e limpe o rejunte com uma escovinha de dentes”. Mas abra a porta, senão você sufoca (de raiva e de excesso de cloro, claro).

pintinholouça

 

Quem ama lava a louça – e quem precisa de foco na vida também.

A luz automática do banheiro e outras coisas inacreditáveis do mundo

Gostaria de saber quem foi o gênio que inventou esse maldito sensor de movimento para luz e, mais ainda, quem foi que teve a belíssima ideia de instalar essas lâmpadas automáticas em banheiros. Nada mais irritante do que alguém – melhor dizendo, uma lâmpada – ditando quanto tempo você tem para fazer xixi.

Imagino o diálogo:

- Precisamos reduzir os gastos de energia aqui na firma!

- Já sei: vamos instalar sensores de movimento para controlar a luz nos banheiros!

- Mas será que não vai dar problema? No caso de um xixi mais demorado, de alguém passando mal, com dor de barriga… A pessoa vai ficar no escuro? Será que alguém pode tomar um tombo e processar a empresa?

- Que nada! As pessoas acostumam! Aprendem a fazer xixi no tempo da luz!

E pronto. Deve ter sido assim que a primeira sumidade empresarial instituiu o uso de sensores de movimento em banheiros. Claro que eles só funcionam quando você está no corredor, próxima à pia ou ao espelho. Quando você entra na cabine, se ajeita e finalmente atinge o nirvana fazendo aquele xixi preso há duas horas (trabalho: o maior patrocinador de cistites no mundo), a luz apaga.

Se você está no banheiro da firma, você minimamente tem, em sua cabeça, o mapa do recinto. E quando você está num toalete novo, ainda não escaneado pela sua mente? Como lidar? Aí é aquele desespero para tatear e encontrar a bolsa, pendurada em algum ganchinho atrás da porta. No escuro, a bolsa cai no chão. Com uma mão você alcança o papel higiênico, com a outra procura o celular para acender a lanterna. Acha o papel. Não acha o celular. Tenta localizar a descarga. Não acha. Cadê o celular? A necessaire cai da bolsa (neste momento você agradece a Deus pelo banheiro ser aparentemente limpo). Você acha o celular. Encontra a descarga. Dá a descarga com medo de jogar o celular no vaso sem querer (ainda está escuro). Você consegue ligar a lanterna do celular. Você segura o celular com uma mão e tenta vestir novamente suas calças com a outra. Você leva o dobro do tempo que levaria para suspender uma simples calça jeans. Recupera a necessaire e guarda na bolsa. Cata a bolsa. Usa o celular como guia, chega de volta ao centro do recinto e, para completar, ainda tem de dançar para ativar o sensor de movimento.

Porque é claro que balançar gentilmente o braço não faz a luz ser religada, assim como apenas uma toalha de papel não seca suavemente as minhas mãos!

Depois de praticamente segurar o tchan no meio do banheiro, a luz acende. Você está descabelada e suada. Lava as mãos e as seca violentamente com cinco folhas de papel reciclado (as árvores da Amazônia desta vez vão te perdoar). Retoca o batom. Olha no celular: foram quase 20 minutos.

E depois ainda me perguntam por que eu odeio essas luzes automáticas.

Resumindo: tem pouca mulher escrevendo

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Não é preciso ser muito esperto para perceber que, sim, tem pouca mulher escrevendo. Quero dizer, na TV. Por aqui, no Brasil, basta ver a lista dos autores de novela e das autoras: digamos que role uma incompatibilidade numérica.

Lá fora, analisemos a lista das roteiristas mais conhecidas atualmente no ar (ou recém-saídas, por fins de temporada ou fim da série). Tina Fey, Mindy Kaling, Lena Dunham e Shonda Rhimes são as top de linha – das quatro, as três primeiras são minhas preferidas. Como pessoa interessada no assunto ainda listo mais algumas: Whitney Cummings (“2 broke girls”), Liz Meriwether (“New girl”), Molly McAller (“2 broke girls”), Megan Ganz (ex-”Community”, atual “Modern family”) e Nahnatchka Khan (“Apartment 23″). São essas que eu conheço bem e venho acompanhando fora da TV e nas redes sociais.

No fim de março o Writers Guild of America West divulgou uma pesquisa oficializando tudo isso que tá aí e que a gente já sabe: tem pouca mulher escrevendo nos Estados Unidos. Minorias, em geral, continuam sem espaço. Perfil mais contratado para os writers’ rooms da vida: white males. É no mínimo curioso que com tantas séries sobre mulheres no ar elas próprias não estejam desempenhando tantos e mais papéis de destaque nos bastidores dessa indústria.

O estudo analisou um universo de 1722 roteiristas, empregados em 190 séries de TV da temporada 2011/2012. Alguns dados (publicados pela Variety)  para esquentar o negócio:

- 10% das séries da temporada 2011/2012 não tinham uma roteirista mulher em suas equipes

– Só 24% dos pilotos da temporada 2010/2011 tinham pelo menos uma mulher roteirista

- As séries com mais mulheres entre seus autores são “90210″ (quer dizer, neste caso, era: atração cancelada, menos emprego para as amigas americanas), “The Big C” (opa, menos uma) e  “Grey’s anatomy”.

Presidente da WGA West,  Christopher Keyser definiu bem a questão: “Não podemos contar a história por inteiro se só metade de nós a escreve”.

PS: Na foto, Tina Fey no Globo de Ouro. Achei que fazia sentido.

Atrizes para se ficar de olho na TV (na TPM)

listatpmViver em “Alta fidelidade” sempre foi um sonho antigo. Deve vir daí uma certa obsessão por listas que desenvolvi ao longo dos anos.

A mais recente é essa aqui, que você pode ler (se quiser, não tô te forçando a nada não, colega) no site da revista TPM. Uma amiga querida me convidou e está aqui: as cinco atrizes para se ficar de olho na TV em 2013.

Achei engraçado ler meu nome assim, grandão, logo no subtítulo – fica parecendo até que sou importante. Mas enfim, é limpinho e de coração. Adoro essas coisas.

Feliz Ano Novo para aprender coisas novas

rookieSabe aquela menina blogueirinha de moda, a Tavi Gevinson? Hoje em dia ela (ainda) tem aquele site/revista, a Rookie. Num dos posts recentes do site, algumas dicas valiosas para o bem viver em 2013. Coisas fundamentais para o ser humano, como lições sobre a melhor forma de se receber e aceitar um elogio (acreditem, não é algo fácil. Haja vista 1. a falta de gentileza no mundo que 2. leva a pessoa a desacostumar a ouvir essas coisas) a dicas sobre como economizar no que dá e a investir no que realmente vale o investimento.

Outra dica importante envolve como lidar com vazamentos em vasos sanitários. Por favor, leiam as dicas para 2013 da Rookie aqui, mas só depois da leitura deste post com uma bela história urbana narrada pela Olívia, bem aqui.

PS: No começo de 2012, a Rookie já havia dado outras dicas de vida. Na lista: como apresentar decentemente uma pessoa a outra e como se desculpar querendo realmente dizer o que está dizendo. Fundamental, eu diria. Ah, a ilustração acima acompanha as lições de 2013 do site/revista.

PS 2: Feliz 2013!

Eu, eu, eu, meu forte não é a rima (nem a periodicidade)

A esta altura do campeonato vocês – meus quatro leitores, digo, minhas quatro leitoras –  já devem ter percebido que periodicidade não é exatamente o meu forte. Já fiz 31 anos há uns meses e ali do lado ainda tenho 30.

Eu sofro de um grande mal – na verdade, vários. Abandono coisas pela metade diante do sentimento de opressão da vida. Sabe aquela cena de “A estranha família de Igby” em que um personagem (era o Bill Pullman?) dizia “sometimes I feel this huge pressure over me”? A vida vai assoberbando a gente, a gente quer fazer as coisas, a gente não dá conta das coisas, a gente chafurda em angústia e em sorvete porque as coisas não andam.

Mas a gente tem que fazer as coisas andarem. Então, sem pressão, tá? Que não lido bem com isso. Uma coisa de cada vez.

E para ninguém dizer que esse foi um texto irrelevante, sem função na sociedade, na internet ou no mundo, deixo um link com afeto: boa matéria do Guardian explicando porque todas as séries que foram apontadas como “o novo ‘Lost’” não deram certo. Aqui, ó. 

Manual da Jovem Descapitalizada: sobrevivendo ao fim do mês

Admita: você já passou por isso. Todas passamos. Depois daquelas férias incríveis, depois daquele mês de shows maravilhosos, daquele vestido baratinho parcelado em 3 vezes sem juros no cartão… A fonte seca. Aquele dinheiro que deveria entrar não entrou (vida de freela é difícil, é difícil como o quê…), aquele desconto foi maior do que o esperado – tem que doar quase metade do seu salário pra esse INSS mesmo? – , aquele reembolso que nunca saiu… Eis a situação: falta uma semana para o próximo salário e você, jovem amiga dona de casa, precisa cantar, dançar e sapatear com aquele troquinho que ficou no fundo da carteira, formado basicamente por notas amassadas resgatadas em suas calças jeans e em suas bolsas, já que sua conta bancária está até brilhando de tão limpa. Não entre em pânico: é possível sobreviver ao fim do mês.

Existem 3 modalidades na categoria Sobrevivência em 7 Dias. A saber:

a) Keep calm and carry on – seu total até o próximo salário é de R$ 120. Se você se inclui nesta categoria, vá lavar uma louça e pare de tripudiar de todas nós. Seu lugar não é aqui.

b) Keep calm and have a  cupcake – total de R$ 80. Mais de R$ 10 por dia? Pelo amor de Deus, você tem aí uma pequena fortuna. Seja sábia e você chegará ilesa até o próximo salário. Dá até pra comprar um cupcake. Mas um só – é bom, você exercita o autocontrole e engorda menos, amiga.

c) I will not keep calm and you can fuck off – R$ 50 até o fim do mês. Essa é a nossa vida, esse é o nosso clube. Se você chegou até aqui, vem comigo!

“Como passar 7 dias com R$ 50?”, você deve estar se perguntando. Calma, jovem descapitalizada. Classe média sofre, mas tudo é possível.

- Transporte: a esta altura do campeonato, suponho que você tenha RioCard, Bilhete Único ou qualquer coisa que o valha. Ou seja: um gasto a menos. Não recomendo tentar ser espertinha e pensar em vender os créditos em busca de dinheiro vivo: não pagam tão bem, entre outras mazelas. Caso você não tenha os cartões, meu conselho: vasculhe todos os cantos de sua casa em busca daquelas moedas de cinco centavos que sempre ficam espalhadas por aí e que você esnoba quando está rica. Faça montinhos no valor da passagem. Feche com durex. Tenho certeza que atrás da sua cama tem moeda suficiente para ir e voltar de ônibus (comum, esqueça o frescão e o metrô) por pelo menos 3 dias.

- Alimentação: suponho que, para o almoço, a jovem tenha ticket-refeição (resista à tentação de beber os tickets no começo do mês) ou bandejão na firma, então vamos nos ater ao jantar. Passe no mercado e compre pacotes de Doritos e um refrigerante de dois litros e meio de sua preferência (light é sempre mais recomendado, né?). Um pacote de Doritos = um jantar. Opção para intercalar, caso a amiga more no Rio: misto quente ou cheeseburguer daquelas suquerias que existem em qualquer esquina, estilo Big Bi. Um cheeseburguer: R$ 5. Não peça para entregar em casa, economize a taxa e queime calorias antecipadamente caminhando até a lanchonete.

Alternativa para um dia de luxo, em que você está, tipo assim, querendo ostentar e se sentir bem diante da vida: vá à Parmê mais próxima e escolha um entre os vários combos disponíveis. Duas fatias de pizza + um refrigerante, ou uma lasanha + um refrigerante, ou uma fatia + refrigerante + doce… Gasto máximo: R$ 10. Outra opção arriscada é pedir a maior pizza na pizzaria mais barata da vizinhança e se alimentar dela pelo resto da semana. Considere como um investimento.  Ah, sim: se você for uma mulher precavida, também terá lasanhas congeladas compradas por R$ 5 na promoção do (insira aqui o nome do supermercado mais barato da sua cidade) já pensando nesta semana da sua vida.

“Ahn, mas eu quero ser saudável, não quero comer bobagens”. Minha filha, você tem R$ 50 para passar uma semana. Se ainda assim você tiver vontade de comer alface, você é uma heroína. Eu camuflaria minha vontade de me jogar da Ponte Rio-Niterói degustando uma engordativa pizza. Alguma alegria há de se ter na vida.

Saídas noturnas: aquela socialzinha com os amigos é possível. Se passar em casa antes: jante. Chegando lá, peça apenas um refrigerante. Não peça um chope, do contrário o Efeito Elma Chips (“é impossível comer um só”) estragará seu planejamento. Ao sair, seja fina e deixe R$ 5 na mesa – nada mais cafona e pobre que deixar o valor exato da bebida. Você não tem dinheiro, mas é educada e limpinha.

Caso a social seja após o trabalho, sem tempo de passar em casa, minha recomendação é simples: peça um refrigerante e um belisquete único no cardápio. Não peça um sanduíche caro. Peça um caldinho. Ou um pastel. Não peça um petisco junto com os amigos: você vai comer pouco e vai sair caro – porque obrigatoriamente um segundo petisco será pedido. E sempre tem alguém que pede comida e não paga. É impressionante. Você não tem dinheiro, mas tem dignidade e, se isso acontecer, honrará com sua parte na conta e terá prejuízo. Portanto, controle a sua conta. E, na hora de voltar para casa, saia cedo para poder ir de ônibus. Táxi é um luxo do qual você não pode dispor nesta semana.

- E o fim de semana? Você vai ficar em casa, bundeando na internet, e a quem perguntar dirá que está arrumando o armário e separando roupas para doação. Omita que a sua intenção era essa, mas que na segunda gaveta você se deprimiu com a falta de dinheiro, abriu o último pacote de Doritos, sentou diante da TV e emendou 3 filmes no Telecine vestindo ainda pijamas.  No domingo, permita-se uma ida à rua e gaste seus últimos reais com algo diferente do que você comeu nestes dias. Volte para casa e durma vendo TV.

Viu como você consegue sobreviver ao fim do mês? Não requer prática, nem tampouco habilidade. Seu salário já está na conta? Pague o aluguel e prometa nunca mais pecar. No próximo capítulo do Manual da Jovem Descapitalizada, abordaremos o tema “DÉCIMO TERCEIRO, SEU LINDO, FICA AQUI MAIS UM POUQUINHO”. Aguardem :D

“Aquela sapatilha da Mr. Cat” ou “consumo, logo pertenço”

Quando eu tinha uns 7 anos de idade tive o que considero hoje minha primeira grande experiência, ainda que inconsciente, da minha relação com o consumo. Era o final dos anos 80 e todos, eu disse TODOS os meus amigos tinham aquela mochila emborrachada da Company. Lembro até hoje: a da Dominique era azul, a da Fernanda era cinza, a da Mariana era preta, a do Danilo era amarela, a do Luiz era verde. E a minha… Não era. Até que num Natal, ou num aniversário, ganhei a tal mochila. E a minha era rosa, um rosa shocking de dar inveja a Molly Ringwald. Andava pela escola e pela rua orgulhosa da minha felicidade emborrachada da Company. Além de linda, resistente e durável (usei até a 8a série), ela era meu passe para o incrível mundo da sensação de pertencimento. Eu fazia parte de alguma coisa maior, eu tinha um elo que me unia àquelas pessoas além da amizade e da sala de aula. Eu fazia parte do grupinho da mochila da Company, uma agremiação reconhecida apenas de forma abstrata, mas que existia, ah, existia.

Os anos passaram e, eventualmente, fui acumulando experiências parecidas. O tênis preto da Redley; o nauru da Redley (usei até gastar, o meu era o marrom de nobuk); o tênis Keds; o short jeans da Dimpus; a camiseta da Anonimato; o short de bali da Kahana e o top da Luca’s (clássicos tijucanos, antes que alguém pergunte); o mocassim da Mr. Cat. Tudo isso fazia parte não só da moda daqueles tempos, mas também de um comportamento coletivo, uma forma de reconhecer os outros como iguais, como pertencentes de um mesmo grupo. E, como já disse Berkeley, “ser é ser percebido”.  Você é percebido, logo, você existe.

Durante muito tempo tentei filtrar tendências e informações de moda de acordo com o meu gosto e minhas preferências. Todo mundo pode estar usando, mas eu posso achar feio pra caramba, dá licença? E foi assim que segui vivendo, ignorando o avanço da estampa liberty ou das saias longas ou qualquer coisa que o valha.

Mas fui automaticamente teletransportada para os meus 15 anos quando vi essa maldita sapatilha dourada da Mr. Cat. Pela primeira vez em muito tempo realmente desejei ardentemente aquele sapato.

Juro. Desejei como se não houvesse outra sapatilha no mundo. Ela era dourada. Dourada! E o prego no caixão: TODO MUNDO estava usando.

[ adendo ] Caso você não lembre, TODO MUNDO é aquela entidade mágica evocada quando se é adolescente e se pretende justificar a) uma saída b) uma graça impossível, e.g: sair de uma festa às duas da manhã c) adquirir algo. Normalmente a resposta é “não me importo com TODO MUNDO, eu me importo com você, que é minha filha”.

Todo mundo estava usando a sapatilha e a agonia dentro do meu peito crescia. Eu PRECISAVA dessa sapatilha, e sequer sabia de onde ela era. Até que tomei coragem e perguntei para uma amiga, na encolha, sem querer pagar de desinformada. “Onde vende esse sapatinho fofo que você tá usando? Vi uma menina na rua com uma igual” (mentira, já tinha visto umas 20, pelo menos). A resposta que deveria apaziguar este pobre coração só me encheu de mais angústia. Eu PRECISAVA  dessa sapatilha, não esqueçam disso. E estava mais dura que pão francês dormido. Não, eu não deveria comprar a sapatilha. Eu deveria pagar as contas, malditas e implacáveis que não param de chegar.

Todo esse nariz de cera só para dizer que na sexta-feira finalmente comprei a tal sapatilha. Sim, é o calçado mais confortável que já calcei nos últimos meses. E, sim, tal qual a mochila, o tênis, o nauru, o short, a camiseta e o mocassim ela me deu a sensação de que eu pertencia novamente a um grupo: o das pessoas sugestionáveis, obviamente.

Mas a sapatilha é linda, vai!