“Aquela sapatilha da Mr. Cat” ou “consumo, logo pertenço”

Quando eu tinha uns 7 anos de idade tive o que considero hoje minha primeira grande experiência, ainda que inconsciente, da minha relação com o consumo. Era o final dos anos 80 e todos, eu disse TODOS os meus amigos tinham aquela mochila emborrachada da Company. Lembro até hoje: a da Dominique era azul, a da Fernanda era cinza, a da Mariana era preta, a do Danilo era amarela, a do Luiz era verde. E a minha… Não era. Até que num Natal, ou num aniversário, ganhei a tal mochila. E a minha era rosa, um rosa shocking de dar inveja a Molly Ringwald. Andava pela escola e pela rua orgulhosa da minha felicidade emborrachada da Company. Além de linda, resistente e durável (usei até a 8a série), ela era meu passe para o incrível mundo da sensação de pertencimento. Eu fazia parte de alguma coisa maior, eu tinha um elo que me unia àquelas pessoas além da amizade e da sala de aula. Eu fazia parte do grupinho da mochila da Company, uma agremiação reconhecida apenas de forma abstrata, mas que existia, ah, existia.

Os anos passaram e, eventualmente, fui acumulando experiências parecidas. O tênis preto da Redley; o nauru da Redley (usei até gastar, o meu era o marrom de nobuk); o tênis Keds; o short jeans da Dimpus; a camiseta da Anonimato; o short de bali da Kahana e o top da Luca’s (clássicos tijucanos, antes que alguém pergunte); o mocassim da Mr. Cat. Tudo isso fazia parte não só da moda daqueles tempos, mas também de um comportamento coletivo, uma forma de reconhecer os outros como iguais, como pertencentes de um mesmo grupo. E, como já disse Berkeley, “ser é ser percebido”.  Você é percebido, logo, você existe.

Durante muito tempo tentei filtrar tendências e informações de moda de acordo com o meu gosto e minhas preferências. Todo mundo pode estar usando, mas eu posso achar feio pra caramba, dá licença? E foi assim que segui vivendo, ignorando o avanço da estampa liberty ou das saias longas ou qualquer coisa que o valha.

Mas fui automaticamente teletransportada para os meus 15 anos quando vi essa maldita sapatilha dourada da Mr. Cat. Pela primeira vez em muito tempo realmente desejei ardentemente aquele sapato.

Juro. Desejei como se não houvesse outra sapatilha no mundo. Ela era dourada. Dourada! E o prego no caixão: TODO MUNDO estava usando.

[ adendo ] Caso você não lembre, TODO MUNDO é aquela entidade mágica evocada quando se é adolescente e se pretende justificar a) uma saída b) uma graça impossível, e.g: sair de uma festa às duas da manhã c) adquirir algo. Normalmente a resposta é “não me importo com TODO MUNDO, eu me importo com você, que é minha filha”.

Todo mundo estava usando a sapatilha e a agonia dentro do meu peito crescia. Eu PRECISAVA dessa sapatilha, e sequer sabia de onde ela era. Até que tomei coragem e perguntei para uma amiga, na encolha, sem querer pagar de desinformada. “Onde vende esse sapatinho fofo que você tá usando? Vi uma menina na rua com uma igual” (mentira, já tinha visto umas 20, pelo menos). A resposta que deveria apaziguar este pobre coração só me encheu de mais angústia. Eu PRECISAVA  dessa sapatilha, não esqueçam disso. E estava mais dura que pão francês dormido. Não, eu não deveria comprar a sapatilha. Eu deveria pagar as contas, malditas e implacáveis que não param de chegar.

Todo esse nariz de cera só para dizer que na sexta-feira finalmente comprei a tal sapatilha. Sim, é o calçado mais confortável que já calcei nos últimos meses. E, sim, tal qual a mochila, o tênis, o nauru, o short, a camiseta e o mocassim ela me deu a sensação de que eu pertencia novamente a um grupo: o das pessoas sugestionáveis, obviamente.

Mas a sapatilha é linda, vai!

3 thoughts on ““Aquela sapatilha da Mr. Cat” ou “consumo, logo pertenço”

  1. Uma das minhas grandes frustrações da adolescência foi não ter ganhado uma mochila da company, e da chomp tb. RYSOS. Eu tenho uma sapatilha dourada da mr cat, comprei no início do ano :P

    Beijo gata!

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