Aqueles dias em que nada está bom

O lado ruim de der o mínimo de espírito crítico é que você sempre põe em xeque as suas habilidades.

Será que eu sou boa nisso mesmo?

Será que eu não deveria desistir dessa bobagem?

Será que eu não deveria me conformar e aceitar o fato de que eu nunca mais vou vestir 38?

Será que eu nunca mais vou conseguir escrever algo engraçado na vida?

O problema dessa lógica de pensamento é que, num determinado momento, você começa a se perguntar: será que eu deveria levantar da cama hoje?

Nessas horas eu sempre repito meu mantra “não quero ser Frances Ha, não quero ser Frances Ha” e vamos em frente.

Steve Carell e o fim do mundo

fimdomundoDia desses estava catando alguma coisa para assistir e lembrei – lembramos – que havíamos gravado “Seeking for a friend for the end of the world”. Queria ter visto esse filme numa das incontáveis viagens para Los Angeles nos últimos anos, mas simplesmente não rolou.

Dia desses um amigo perdeu um grande amigo. A gente, que não se encaixa nos padrões, passa a vida inteira tentando pertencer (“ser é ser percebido”, valeu Berkeley) e, depois de muito tempo, acha sua casa no outro. É como se todo momento de humilhação e de bullying e de vergonha por ser quem se é tivesse valido a pena, porque nos levou até esse momento em que essa pessoa, que parece com você, que entende você, está ali na sua frente.

E aí a vida vai e muda tudo. E aí só consigo pensar no Steve Carell.

Com o mundo perto do fim, a personagem da Keira Knightley diz que está com medo, e que eles deveriam ter se conhecido antes, deveriam ter se conhecido na infância, que o tempo dos dois juntos foi muito pouco.

E Steve Carell responde, tranquilo: “Todo o tempo do mundo teria sido pouco”.
Todo o tempo do mundo sempre vai ser pouco. Acho que é bem por aí.

No meu casamento vai ter coxinha

Estava conversando com uma amiga dia desses e bati o martelo: no meu casamento vai ter coxinha.

No dela também teve. Somos coxinhófilas, as duas, e foi um momento muito feliz do evento. Consegui a proeza de ter, no mesmo prato, bolo de morango e coxinhas.

Olha, dona do buffet, a senhora pode chamar de pingos de frango, de coxinha gourmet, mas as coisas são o que são. E, no meu casamento, coxinha vai ser coxinha. Pode ter cavier, apesar de sinceramente achar caviar uma bela porcaria. Pode ter camarão – para os outros, porque eu mesma detesto coisas do mar. Mas vai ter, sim, todas as coisas que eu gosto (e o noivo também). Então vai ter que ter coxinha e brigadeiro, e eu sinceramente não estou nem aí se é chique ou não – tudo isso faz parte do que eu sou e, afinal de contas, a festa é minha, e não sua, senhora dona do buffet.

Você passa 20, 25, 30 anos sendo quem você é. Comendo sua coxinha, vestindo quanto você veste, calçando sapatos coloridos, usando seu batom vermelho, ouvindo as músicas que você gosta. Por que em uma noite tudo tem que ser completamente diferente?

Por que você não pode ser quem você é no seu próprio casamento?

“Ah, eu quero fazer a festa dos meus sonhos, quero virar a Cinderela, quero reproduzir o casamento real no salão de festas”. Cada um com seu cada qual. Mas hoje, lendo essa matéria no Jezebel, sobre dietas pré-casamento, só consegui pensar que:

1. No meu casamento vai ter coxinha, sim.

2. Se entro numa loja (esqueci, chique é atelier e não loja) e alguém ousar me dizer para emagrecer para caber no vestido eu não só troco de vestido como de loja.

Wedding Diets Are Evil and Just Make Women Feel Like Shit

Em 1978

Minha mãe tinha 24 anos.

Sua melhor amiga na época, sua melhor amiga até hoje, posta numa rede social uma foto das duas.

- Mãe, adorei a foto. Você estava lindíssima.

(Amo superlativos).

- Eu ODIEI aquela foto. Estava gorda e barriguda.

(Ela provavelmente vestia 38 ou 40).

Concluímos, portanto, que visões distorcidas de si mesmo são extremamente comuns nesta família.

Mas é fato que meu braço está enorme e não uso mais regatas até que eles virem gravetos.

Eu não quero ser Frances Ha

Há uns meses, um amigo me recomendou um filme a que ele havia acabado de assistir no cinema.

- Você tem que ver Frances Ha, é a sua cara. O tipo de filme que você vai amar. E tem o Adam de Girls – disse.

Meses depois, o filme passou a fazer parte do acervo da Netflix. O assunto voltou à tona.

- Você precisa ver Frances Ha – recomendou uma outra amiga. – É sua cara.

Num sábado de chuva, resolvi assistir ao filme. E fiquei deprimida. Eu não quero ser Frances Ha.

Andy: So what do you do?

Frances: It’s complicated.

Andy: Is it because what you do is complicated?

Frances: No, it’s because I don’t do it.

Veja bem, eu adorei o filme. Meus amigos estavam certos, é o tipo de filme que eu gosto. Mas acompanhe meu raciocínio: Frances é uma jovem não tão jovem, um tanto desengonçada das ideias – não é por mal. Ela só pensa por caminhos diferentes. O objetivo de Frances é ser dançarina – vocação para a qual ela demonstra talento limitado, vamos dizer assim (não me sinto bem classificando personagens de filmes como incompetentes, não quero magoá-los). Por fim (alerta de spoiler – se não viu o filme pare aqui, se não liga para isso continue), Frances se rende à pressão social – e dela mesma – e desiste de ser dançarina. Aceita um emprego na área administrativa do estúdio de dança no qual era aprendiz. Acaba se tornando uma coreógrafa. Mas dançar, que é bom, ela não dança.

Eu não quero ser Frances Ha, e é por isso que pela milionésima vez estou aqui.

francesha

‘Winter is coming’ ou 10 sinais de que já é inverno no Rio de Janeiro

winteriscomingOlha, eu moro no Rio. E sei que o inverno ainda não chegou. Mas aqui seguimos um calendário aparentemente muito peculiar. Sim, eu sei que, para vocês, ainda estamos no outono. Mas eu garanto que, aqui no Rio, já é inverno.

Como? Lendo os sinais.

Como saber se já é inverno no Rio? Oras, já é inverno no Rio…

1. Se começou o festival de fondue do Fazendola. (O festival de fondue do Fazendola, obviamente, não acompanha o calendário fixo das estações do ano. Ele começa quando o carioca começa a sentir frio, apenas, o que pode acontecer em março ou em junho – depende).

2.  Se você está dormindo com o ventilador desligado. (A alegação normalmente é “de noite tem dado uma refrescadinha”)

3. Se você já dorme com edredom. (Aquela mantinha fina também entra na categoria “coberta”).

4. Se você sai de casa de bota e/ou galocha. (Quando as sandálias e chinelos e sapatos abertos são deixados de lado, bem, é porque está frio mesmo na cidade).

5. Se começam os festivais de sopas e caldos na cidade. (Comidas quentes, né? Para os dias frios!)

6. Se revistas e jornais já publicam matérias sobre festivais de fondue, sopas e caldos na cidade. (Porque o carioca friorento que padece no inverno carioca precisa saber onde os outros cariocas estão se protegendo do frio de uma forma bem carioca)

7. Se você sai de casa já vestindo casaco (Normalmente o casaco é levado na bolsa apenas nos casos de “pode estar ventando lá” ou “o ar-condicionado do cinema pode estar gelado”)

8. Se está chovendo e as janelas do ônibus estão fechadas porque né, “tá frio”. (Mesmo que fique aquela nhaca danada no coletivo. Sim, carioca confunde chuva com frio)

9. Se 1 em cada 5 pessoas está usando cachecol. (Esse estranho objeto que muitos cidadãos cariocas amam. Ventou? É cachecol no pescoço)

10. Se os termômetros nas ruas marcam 20 graus. (Exato.)

Um dia de folga para Deus, por favor

Olha, eu não sei qual é a sua religião, nem no que você acredita. Cada um com seu cada qual. Mas acho que Deus já deve estar bem cansado. Deus merece um dia de folga.

Você está com um problema na vida? “Entregue para Deus”, dizem uns. “Deixe nas mãos do Senhor”, falam outros.

Olha, eu super confio em Deus, mesmo. Até aqui nos guiou o Senhor. Mas será que dá pra gente parar de deixar tudo na mão Dele e mexer nossas bundas só um pouquinho? Tipo fazer por onde?

Eu acredito nos desígnios divinos tanto quanto acredito no livre arbítrio. Sei que, no que Ele pode ajudar, Ele sempre ajuda (tem coisa que depende da gente, né? Não só dele). Mas daí a deixar tudo nas mãos do Senhor e descansar achando que Deus vai escolher o que for melhor para mim? Coitado do Senhor, ele fica com todo o trabalho pesado enquanto eu fico aqui, sentadinha, esperando ele resolver tudo pra mim? Não. Eu me sinto na obrigação de dar uma mãozinha para Ele. Imagina quantas pessoas precisam Dele. Deus não vai dar conta. Aliás, desculpe por ocasionalmente te sobrecarregar, Deus.

Deus pode me deixar dar um palpite, não? Se Deus criou tudo, ele sabe como as coisas funcionam e que é de bom tom analisar os dois lados de cada situação. Tudo bem, o Senhor pode decidir o que quiser, confio totalmente no seu parecer, mas ó, analise o meu pedido em três vias e grave o meu depoimento oficial para anexar na minha solicitação a ser deferida. Trouxe umas fotos, umas cópias xerox de uns documentos, sabe, pra facilitar o Seu trabalho (deveria dizer Vosso?).

Parem de deixar todas as decisões importantes e problemas só nas mãos de Deus – ou de outras pessoas. Isso é muito chato. Tenho a impressão de que, hoje em dia, todo mundo quer terceirizar seus problemas.  Até o Senhor merece um dia de folga.

Lavar louça é vida, apontam estudos

Uma das minhas leituras favoritas na internet nos últimos tempos é o Be More With Less. A autora, Courtney Carver, tem 43 anos, é mãe de uma adolescente, tem esclerose múltipla (“a doença não me define, nem o meu blog, mas tem um grande impacto na minha vida”, ela diz) e fala dos benefícios do minimalismo, no sentido mais amplo da palavra – estabelecer prioridades, consumir menos, gastar menos, dever menos, ser mais feliz. Juro, é agradável.

No post mais recente, ela fala sobre a necessidade de simplificarmos a vida e sairmos da roda-viva do dia a dia. E também dá alguns conselhos que, para minha surpresa, comprovam o que popularmente se diz por aí: falta louça para lavar no mundo.

Os conselhos de Courtney: 

  • “If you get lost, do the laundry. You know how to do that. You don’t need input or direction. Just do it.
  • If you feel scattered, wash the dishes. Turn off your dishwasher and wash each dish as if it’s the most important thing you have to do.
  • If your mind is racing, hang out by the spin cycle. Let the background noise quiet your mind.
  • If you are anxious, sweep the floor. Sweep up your worry along with the dust (and dog hair in my case).
  • When things get messy, shine your sink. If your to-do list is out of control or your mind is full of idea and you don’t know where to start, clean your sink”.

Eu acrescentaria o “se estiver com raiva, esfregue o box do seu banheiro com X-14 e Sapólio e limpe o rejunte com uma escovinha de dentes”. Mas abra a porta, senão você sufoca (de raiva e de excesso de cloro, claro).

pintinholouça

 

Quem ama lava a louça – e quem precisa de foco na vida também.

A luz automática do banheiro e outras coisas inacreditáveis do mundo

Gostaria de saber quem foi o gênio que inventou esse maldito sensor de movimento para luz e, mais ainda, quem foi que teve a belíssima ideia de instalar essas lâmpadas automáticas em banheiros. Nada mais irritante do que alguém – melhor dizendo, uma lâmpada – ditando quanto tempo você tem para fazer xixi.

Imagino o diálogo:

- Precisamos reduzir os gastos de energia aqui na firma!

- Já sei: vamos instalar sensores de movimento para controlar a luz nos banheiros!

- Mas será que não vai dar problema? No caso de um xixi mais demorado, de alguém passando mal, com dor de barriga… A pessoa vai ficar no escuro? Será que alguém pode tomar um tombo e processar a empresa?

- Que nada! As pessoas acostumam! Aprendem a fazer xixi no tempo da luz!

E pronto. Deve ter sido assim que a primeira sumidade empresarial instituiu o uso de sensores de movimento em banheiros. Claro que eles só funcionam quando você está no corredor, próxima à pia ou ao espelho. Quando você entra na cabine, se ajeita e finalmente atinge o nirvana fazendo aquele xixi preso há duas horas (trabalho: o maior patrocinador de cistites no mundo), a luz apaga.

Se você está no banheiro da firma, você minimamente tem, em sua cabeça, o mapa do recinto. E quando você está num toalete novo, ainda não escaneado pela sua mente? Como lidar? Aí é aquele desespero para tatear e encontrar a bolsa, pendurada em algum ganchinho atrás da porta. No escuro, a bolsa cai no chão. Com uma mão você alcança o papel higiênico, com a outra procura o celular para acender a lanterna. Acha o papel. Não acha o celular. Tenta localizar a descarga. Não acha. Cadê o celular? A necessaire cai da bolsa (neste momento você agradece a Deus pelo banheiro ser aparentemente limpo). Você acha o celular. Encontra a descarga. Dá a descarga com medo de jogar o celular no vaso sem querer (ainda está escuro). Você consegue ligar a lanterna do celular. Você segura o celular com uma mão e tenta vestir novamente suas calças com a outra. Você leva o dobro do tempo que levaria para suspender uma simples calça jeans. Recupera a necessaire e guarda na bolsa. Cata a bolsa. Usa o celular como guia, chega de volta ao centro do recinto e, para completar, ainda tem de dançar para ativar o sensor de movimento.

Porque é claro que balançar gentilmente o braço não faz a luz ser religada, assim como apenas uma toalha de papel não seca suavemente as minhas mãos!

Depois de praticamente segurar o tchan no meio do banheiro, a luz acende. Você está descabelada e suada. Lava as mãos e as seca violentamente com cinco folhas de papel reciclado (as árvores da Amazônia desta vez vão te perdoar). Retoca o batom. Olha no celular: foram quase 20 minutos.

E depois ainda me perguntam por que eu odeio essas luzes automáticas.