A vida dos outros

- Ela é loura, mora na Zona Sul, é chef de cozinha, tatuada e faz yoga – diz minha amiga.

- Você já teve a impressão de que a vida dos outros parece ser muito mais interessante que a nossa? – pergunto, enquanto remexo meia dúzia de folhas de alface no prato depois de algumas horas de trabalho, como faço todos os dias.

- Mas a nossa vida é interessante. As pessoas costumam achar a nossa vida exótica – responde a terceira pessoa à mesa.

É verdade. Não podemos reclamar, nenhum dos três: metade das coisas que vimos e vivemos e ouvimos costuma ser, no mínimo, exótica. No máximo, interessante em diferentes níveis.

Mas por que, no geral, a vida dos outros sempre parece mais interessante, mais divertida e mais pitoresca que a nossa?

Resposta: não sei. Ainda estou refletindo sobre o assunto.

(“It’s hard to be yourself when everyone is someone else”, obrigada, Ben Kweller).

‘Uma noite na lua’, Gregório e o pânico do autor

umanoitenaluaNa semana passada um amigo me convidou para a reestreia de “Uma noite na lua”, com Gregório Duvivier. Acompanho o trabalho do cara há um tempo (e como meu namorado não lê isso aqui mesmo posso admitir que acho o rapaz a coisa mais linda do mundo depois dele – do meu namorado, claro) e aceitei de bom grado.

Só havia ouvido falar maravilhas da peça, que continua em cartaz no Teatro dos 4, no Shopping da Gávea. Como vai contra os meus princípios dizer “você TEM QUE ______ (insira aqui qualquer verbo)”, digo apenas: se tiver a oportunidade de assistir à peça, se for convidado, ou se não tiver nada melhor para fazer numa noite de terça ou quarta, apenas vá. Se der, se não der tudo bem, cada um com suas prioridades. Ninguém TEM QUE nada, óbvio.

Mas Gregório arrebenta, com o perdão do termo raso e pouco rebuscado. Fiquei impressionada com o rapaz. Que ator esplêndido. A impressão que dá é que o cara transborda tanto talento para além da comédia, para além dessas paradas de stand up, que bota quase todos os coleguinhas do ramo no chinelo. Rola uma melancolia da comédia. Saca um palhaço triste? Ou aqueles filmes que fazem rir mas são de uma tristezinha interna e aí não sabem como classificar quando passa no “Supercine” (essas coisas nunca passam na “Tela quente”) e lascam um “comédia dramática”? É meio assim. Eu gosto à beça dessa linha.

Para quem não viu, a peça é escrita por João Falcão e foi encenada pelo Marco Nanini há 15 anos. Um autor passa uma noite em claro tentando escrever uma peça de teatro depois que sua mulher o deixa (essa seria a sinopse que eu escreveria em uma linha. Lembrem que eu sou a pessoa que fazia sinopses curtas para o roteiro de cinema de um determinado jornal escrevendo aberrações como “Homem tem super-poderes” para “Superman” e “Jovem vive em Paris” para “Um lugar na plateia”. Escrever não só é a arte de cortar palavras como excluir o raciocínio lógico também). Esse é o mote da peça.

Mas o pânico do autor diante da obra, na peça, é sensacional. Em um dado momento, o personagem pede uma ideia a Deus, que lhe dá uma infinidade de luzes (literalmente). “Deus, porque o Senhor me pôs no mundo quando todas as ideias já foram tidas e tudo já foi escrito?”, ele reclama, não exatamente com essas palavras. Não tem um dia em que eu não me pergunte isso. Sobre o que vou escrever? Tudo já foi feito. Tudo já foi dito. Nada mais é inédito. Que saco, hein. Ideia genial, essa fantasia.

Em outro momento, ele fala para a mulher (que não está lá, é quase uma amiga imaginária) que vai fazer a peça, sim, que vai escrever a peça e que ela vai ao teatro ver e que a mãe dele também vai ver e AI MEU DEUS TODO MUNDO VAI VER A MINHA PEÇA SOCORRO.

Pescou? É mais ou menos assim que eu me sinto quando escrevo.

Sério, se puderem assistam à peça.

Quem é Domino Kirke?

Tudo começa assim: vi uma série, que me levou a ver um filme, que me levou a baixar a trilha sonora, que me levou a pesquisar quem cantava aquela música que eu gostei tanto.

A música era essa:

Domino, com seus 20 e tantos/quase 30 anos, é Domino Kirke, irmã de Jemima Kirke – sim, a Jessa de “Girls”. Foi modelo, foi cantora e compositora, resolveu virar doula, voltou a cantar. É uma das preferidas das grávidas hipsters de Williamsburg (a outra irmã, Lola, tem uma banda).

Breve parêntese para uma foto das três irmãs na Vogue UK. Domino é a da direita.

irmaskirke

Em 2006, Domino (a cantora e a banda, que levava seu nome) abriu para Lily Allen. Hoje em dia ela segue em carreira solo, prepara um novo álbum, estuda para ser parteira, tem um guri de uns 3 anos e escreve um livro sobre o trabalho como doula.

Curiosamente até hoje não achei um arquivo que prestasse com as outras músicas dela (MySpace antigo não conta muito), o que acabou deixando “Hide and seek” no meu repeat mental desde que tive acesso (eufemismo para efeitos jurídicos) à trilha de “Tiny furniture”.

“And what if life is just a game of hide and seek? I feel like I’m getting older and what I want is just around the corner”. Como não suporto a personagem de Jemima em “Girls”, acho que Domino é a irmã Kirke que mais gosto desde já.

“Não dá para fazer tudo para todo mundo o tempo todo”, diz o moço da farmácia

Há coisa de uns dois meses entrei na farmácia já bem tarde, saindo do trabalho, com uma receita da dermatologista na mão. Estava há quase um mês com o papel na bolsa. Nunca pegava a drogaria aberta (sim, e ela fecha às 22h). Nesse dia eu consegui.

- Oi, boa noite, o senhor tem o Gel X Para a Pele?

Mostrei a receita.

Foi aí que a conversa mudou de rumo.

- Vamos ver… Você tá com acne?

- Não, minha pele tá só um pouco oleosa, acho que é do calor.

- Me diz uma coisa, você é muito ansiosa? Tem crises de ansiedade, palpitação, dor no peito?

- Sou. Muito. Tenho.

- Vou te contar uma coisa. Eu trabalhei durante muito tempo numa farmácia em que o dono era um cara muito bacana, mas sofria muito de ansiedade. Ele perdeu todo o cabelo. Era muito ansioso.

Já estava pensando que se toda essa ansiedade dentro do meu peito se revertesse em menos cabelo não seria tão ruim. Se bem que poderiam cair uns tufos desordenados, eu poderia ficar com uns buracos desconjuntados, e aí estaria mais ansiosa. Melhor não. Melhor ter meu muito cabelo mesmo. Tá bom assim.

Aí o moço continuou:

- Vou te dizer a mesma coisa que eu disse pra ele na época.

- E o que foi?

- Não dá para fazer tudo para todo mundo o tempo todo.

Saí da farmácia bem pensativa. Não dá para fazer tudo para todo mundo o tempo todo. Como eu nunca tinha percebido isso?

(Resposta: provavelmente estava muito ocupada tentando me multiplicar em trezentas para dar conta de fazer tudo para todo mundo o tempo todo. Obrigada, moço da farmácia: o senhor me deu material suficiente para reflexão desde então).

Nomes de esmaltes e o Cardápio da Firma

Durante muito tempo achei que a melhor profissão do mundo deveria ser a do sujeito que cria os nomes de esmaltes – só uma mente num estágio muito avançado de loucura poderia ser capaz de pensar coisas como Marshmellow de Alfazema ou Via Láctea ou, ainda, de dar a um esmalte cor de rosa o nome de Tieta (Tieta = vermelho, óbvio).

Até que conheci o Cardápio da Firma. Taí uma pessoa que barrou o Batizador de Esmaltes: o Batizador de Pratos da Firma.

Acompanhem comigo os nomes já catalogados: Chuchu Mimoso, Vagem Festiva, Salada Futurista, Salada Magnética  e, hoje, a Cenoura Burguesa.

Como bem disse minha irmã, se fosse cenoura com caviar eu até entenderia o nome (talvez o Batizador de Esmaltes já precise de um curso de reciclagem com o Batizador de Pratos da Firma).

Emma Forrest, a loucura e todos nós

emmaforrestNão costumo ignorar quando um livro aparece na minha frente de maneiras misteriosas. Foi assim que dei de cara com “Sua voz dentro de mim”, lançado aqui no Brasil pela editora Rocco há uns meses. Olhei rapidamente a orelha e vi que era a história de uma jornalista/roteirista atormentada. Gosto de histórias deste tipo (sobre jornalistas atormentados) porque elas funcionam de duas maneiras:

1. Como alerta: “veja o que pode acontecer com você se der um passo errado”

2. Como alento: “você deu o passo certo, então veja do que você escapou”.

Resumindo, Emma Forrest era uma jovem perturbada desde a adolescência. O problema se agravou quando adulta, diante do mundo cruel e real que tá aí à espreita, né, senhores, todos os dias. Tentou se matar, não logrou êxito (hoje ela conta, no Twitter, detalhes sobre a rotina de seu bebê de três semanas de idade). Conheceu um astro de cinema depois de fazer uma visitinha ao fundo (falso) do poço, e achou que estaria vivendo o seu filme. O filme bom da sua vida – bem, ela não disse isso, eu é que vi assim. Sabe quando tudo dá errado e você acha que sua vida é um filme daqueles bem desgracentos, tipo aquele em que a Claire Danes e uma amiga são presas num país exótico (esqueci o nome e tô com preguiça de googlar, então me desculpem)? Aí acontece uma coisinha boa e o cenário do seu filme pessoal já muda para um lindo dia no Central Park, lotado de crianças e balões coloridos.

Emma Forrest achou que não só o cenário como também o roteirista do seu filme pessoal tinha mudado ao conhecer seu Marido Cigano – ninguém menos que Colin Farrell. Como ele era/é mais doido que a pobre moça, o lance logo dá errado e a cabeça dela opera como se mudasse de canal para um filme pior que o original (mais ou menos como quando você está assistindo a uma reprise de “Law & order SVU”, de um episódio que você já viu, sabe como termina, mas ainda assim assiste).

No Google e nos tabloides (ela é britânica, radicada em Los Angeles. Nota mental: ser alguém um dia de quem se diga “fulana, roteirista radicada em Los Angeles”), os comentários gerais classificavam o livro como um relato da relação dos dois. Acho que Emma foi até gentil e delicada ao não espinafrar Farrell de todas as formas em público, narrando apenas os fatos, e só eles, desse namoro. Mas assim que terminei de ler (o que levou o que, uns dois ou três dias) vi que esse era dos temas menores do livro. Farrell não era o homem da vida de Emma: o homem da vida de Emma era seu analista, que a acompanhou por anos, nas fases de crise e nas fases boas e que, sem ela esperar, morreu por conta de um câncer (o “sem ela esperar” tem a ver com o fato de ninguém, nenhum paciente, saber que ele estava doente). Ele era casado, tinha filhos e os dois não tiveram qualquer tipo de relação romântica ou platônica.

O analista era o homem da vida de Emma, e não o ator de Hollywood. O fato de ela falar abertamente de suas loucuras incomoda muita gente. Acho interessante, porque não é o tipo de coisa sobre a qual costumamos pensar. Tenho as minhas aqui comigo e espero  que elas se comportem quietinhas (minha grande neurose sempre foi o pânico de, um dia, ficar maluca. Mas ao contrário de Emma, não gosto de falar disso. Acho que atrai, sei lá).

Aquele episódio 5 de ‘Girls’

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Tô há dias pensando, e lendo, e digerindo e refletindo sobre este quinto episódio da segunda temporada de “Girls”.

Muita gente não gostou; eu adorei. É o tipo de episódio que leva a várias reflexões.

Costumo prestar atenção nas séries com o olhar de pessoa normal, de jornalista e roteirista. Este episódio me cativou nas três frentes, mas principalmente na primeira.

Este artigo do Jezebel é muito oportuno: rebate, de cara, um aspecto levantado pela maioria dos homens que eu conheço – o excesso de nudez de Lena Dunham. Tenho certeza de que, fosse Anna Paquin em cena, as reclamações cairiam pela metade. Como disseram o rapazes da Slate: “How can a girl like that get a guy like this?”. E ainda perguntam: “Was that the worst episode of Girls ever?”. Seria o pior episódio porque uma garotinha petulante, gorducha e sem vergonha das suas banhas ousou achar que poderia ter algum tipo de relação com um cara bonitão, mais velho e bem-sucedido? Nas entrelinhas, é isso que eles estão dizendo. Bom, nem tão nas entrelinhas assim.

“How can a girl like that get a guy like this?”. Senhor, por onde começar ao ler isso?

Fico me perguntando como homens capazes de pensar e escrever isso em público são no plano particular. Como tratam suas namoradas. E como tratam mulheres em geral. Mas Tracie Egan Morrissey – que assina o tal artigo do Jezebel de que falei – explica melhor que eu, que às vezes prefiro calar para não falar o que não devo.

 It’s not enough to simply acknowledge that, like the Slate guys, you’re prejudiced against the idea of a physically imperfect woman being able to enchant a hunk like Joshua. You should be asking yourself why that is. Because if we’re going to talk about privilege when we talk about this show, then we should talk about privilege in all respects: like how value is assigned to a woman by how she looks. And how that valuation determines the level of bullshit that people will tolerate from her.

Isto posto, o que me fez pensar foi exatamente a cena da ilustração acima (créditos para Alex Bedder, do New York Observer). O diálogo:

- Please don’t tell anyone this, but… I want to be happy.

- Of course you do. Everyone does.

- Yeah, but I didn’t think that I did. I made a promise such a long time ago that I was gonna take in experiences, all of them, so that I could tell other people about them and maybe save them, but it gets so tiring… Trying to take in all the experiences for everybody, letting anyone say anything to me. Then I came here… And I see you. And you’ve got the fruit in the bowl and the fridge with the stuff… The robe, and you’re touching me the way that… I realize I’m not different. You know? I want what everyone wants. I want what they all want. I want all the things. I just want to be happy.

Reconhecer que não é diferente dos outros por seus desejos serem exatamente iguais aos do resto do mundo, quando se tem 20 e poucos anos, é mais ou menos assim mesmo. Só um lembrete para quem não passou por isso – ou prefere esquecer que o fez. (Nota: a expressão life-changing experience também se aplica a esta situação – e a situação do episódio).

E admitir isso, seja na vida real ou na ficção, seja uma pessoa de carne de osso ou uma personagem, é uma das coisas mais difíceis do mundo. A sensação que tenho é que hoje em dia ninguém quer nem pode parecer vulnerável ou frágil, e ver o outro nesta posição provoca ojeriza porque nos lembra de nossa própria fragilidade.

Também poderia falar por horas sobre a direção do episódio, o texto, a trilha sonora e outros aspectos mais técnicos (como a semelhança que salta aos olhos em relação a uma determinada cena de “Lost in translation”, meu filme preferido na vida) mas quando a coisa te toca (epa) num âmbito mais pessoal, o resto é detalhe.

Enfim, eu disse que o episódio levantou várias reflexões. Não ando muito boa com palavras, mas é mais ou menos isso que eu penso – não que alguém tenha pedido minha opinião.

Um adendo: esse episódio também foi fundamental para delinear a personagem. Humanizar Hannah. Ela não é uma garota chatinha sem motivo. Agora, sabemos os motivos que a levam a ser assim – e a não ser como ela é realmente é.

Coisas que não precisam ser justificadas – você não deve satisfação a ninguém

Vi este link no Facebook, por meio da Yael (obrigada!). Claro que alguns itens sempre vão carecer de contexto, mas no geral achei bacana. Eu, que sofro do mal de dar satisfações para estranhos (tipo entrar numa loja para comprar um sapato e explicar que estou ali porque o meu rasgou e fiquei arrasada porque era lindo e só tinha dois meses de uso e ainda estava pagando no cartão de crédito, e por aí vai), fiquei particularmente feliz ao ler os quesitos a seguir:

8. Your income level, and what you can and cannot afford. If you are having trouble keeping up with friends because you are not able to spend as much as them, there is no reason to risk financial ruin to try and keep up appearances.

9. Your body. The only person whom you need to talk to about with it is your doctor; everyone else can else can go kick rocks.

10. Whether or not you want to go out on a weekend night, or ten weekend nights in a row. The amount of time you spend in a bar or at a club does not directly correlate with how cool or worthy a person you are.

11. Your relationship status. If you’re single and happy, that’s great. If you’re in a relationship and happy, that’s great. If you’re either of those and not happy, you are more than allowed to be, and it’s no one’s business how you should “fix” it unless you ask them for their advice.

12. How many friends you have. One is enough. A hundred is enough. And there is no need to falsely upgrade acquaintances to “friend” status in your mind simply to fill out the ranks. A true friend is rare, and we don’t need to make it a competition for who has the most.

Na minha lista pessoal ainda acrescentaria alguns itens:

- Ausências. Uma das coisas mais bestas do mundo é dizer “nossa, a festa foi ótima, você perdeu”. Sabe lá se a pessoa perdeu mesmo? Você sabe se o que ela estava fazendo foi mais proveitoso? Você não precisa justificar suas ausências.

- Presenças. Coisa mais irritante do mundo é ouvir um “se você não for vou ficar chateado”, ou “não quero saber, você vai de qualquer jeito”. No meu caso, ouvir isso ativa instantaneamente o botão cerebral “agora mesmo é que eu não quero ir/não vou”. Amigo não cobra presença. Amigo não cobra amizade. Você não deve satisfações sobre isso.

- Gostos pessoais. Se eu gosto de uma coisa e você não, favor não tentar me convencer de que meu gosto é ruim. Em contrapartida, prometo não dizer que as coisas que você gosta são uó (mesmo que eu realmente pense isso).  Você não precisa justificar suas preferências.

Esqueci alguma coisa?

[Update] Um esclarecimento, motivado pelo comentário pertinente da minha querida Rach: obviamente que eu acho que não custa nada dar uma satisfação ao amigo querido que se preocupa com você e diz “Nossa, você teria adorado” com carinho e boa intenção.  O problema é que, em boa parte das vezes, não é nesse sentido que as pessoas pensam ao dizer “Nossa, você perdeu!”. É no sentido de intromissão mesmo, não sei explicar, uma coisa agressiva. Mas tenho certeza que a Rach entende o que quero dizer, né, Rach? :)

Eu, eu, eu, meu forte não é a rima (nem a periodicidade)

A esta altura do campeonato vocês – meus quatro leitores, digo, minhas quatro leitoras –  já devem ter percebido que periodicidade não é exatamente o meu forte. Já fiz 31 anos há uns meses e ali do lado ainda tenho 30.

Eu sofro de um grande mal – na verdade, vários. Abandono coisas pela metade diante do sentimento de opressão da vida. Sabe aquela cena de “A estranha família de Igby” em que um personagem (era o Bill Pullman?) dizia “sometimes I feel this huge pressure over me”? A vida vai assoberbando a gente, a gente quer fazer as coisas, a gente não dá conta das coisas, a gente chafurda em angústia e em sorvete porque as coisas não andam.

Mas a gente tem que fazer as coisas andarem. Então, sem pressão, tá? Que não lido bem com isso. Uma coisa de cada vez.

E para ninguém dizer que esse foi um texto irrelevante, sem função na sociedade, na internet ou no mundo, deixo um link com afeto: boa matéria do Guardian explicando porque todas as séries que foram apontadas como “o novo ‘Lost’” não deram certo. Aqui, ó. 

Área de interesse: pessoas

Dia desses tive que responder um questionário no local de trabalho, a título de auto-avaliação da minha performance enquanto funcionária da empresa. Acho todos esses mecanismos superdemocráticos até o momento em que a pessoa encarregada da avaliação externa derruba sua imagem de si mesmo e diz que não, naquele item que você se achava o máximo, sabe? Não é bem por aí. Ops.

Isso raramente acontece comigo porque tendo a me achar o mínimo em vez do máximo – quer dizer, depois de anos trabalhando isso na minha cabeça pelo menos cheguei a algo no meio-termo, o que sempre ajuda a evitar frustrações como essa. “Como assim não sou uma pessoa inovadora?”. Esse tipo de situação poucas vezes me pega de surpresa, normalmente imagino o “nossa, nego realmente acha que sou melhor do que eu sou, que loucura”. E assim seguimos bem, amigo-irmão caminhoneiro.

Enfim, digressionei bonito aqui. Voltando: estava respondendo o tal formulário quando me veio a pergunta “Área de interesse:”. Assim, sem nem se anunciar como pergunta, sem aquele ponto de interrogação simpático que já te faz começar a pensar na resposta. Área de interesse: dois pontos.

Qual minha área de interesse?

Tive que dar uma resposta prática, do tipo “editoria x” e “editoria y”. Mas fiquei com isso na cabeça e concluí que meu primeiro impulso ao ser questionada sobre isso novamente seria dizer pessoas.

Área de interesse: pessoas.

O que me interessa: saber que horas a senhorinha da banca de jornais da esquina acorda e começa a trabalhar. Ou por que aquela dona tá ali no bar bebendo cerveja às nove da manhã. Ou por que aquela moça sentada no banco do lado no metrô está chorando. E como aquele senhor ali conseguiu pintar aquela casa sozinho? E aquele ator, será que ele gostou mesmo de fazer aquele papel naquele filme ou foi só por dinheiro? O que aconteceu hoje que te deixou triste? Ou aquele policial ali na rua, como ele já fez amizade com a tiazinha que vende café? Será que o cobrador da van que sabe cantar todas as músicas da Britney Spears conseguiu ir ao show dela dia desses? A caixa do supermercado que foi destratada por um cliente idiota ficou triste? Como aquela dona consegue equilibrar um bolo, uma sacola e ela mesma na garupa daquela moto? E como o autor da novela consegue dar conta de escrever um capítulo e responder o email que mandei com um milhão de perguntas? E como você veio parar aqui? Como o Dan Harmon pensa e escreve um episódio de “Community”? Como aquele homem não tem vergonha de gritar com uma criança na rua? E aquele cara que estava naquela foto da morte do Kadafi, o que será que ele estava pensando naquele momento? O que toda essa gente tem a dizer sobre isso?

Essas coisas me interessam. O resto é formalidade, é só a gaveta onde a gente guarda tudo isso. Quer dizer, eu acho, né. A história das pessoas sempre me pareceu mais importante do que o espaço onde as arquivamos.