‘Uma noite na lua’, Gregório e o pânico do autor

umanoitenaluaNa semana passada um amigo me convidou para a reestreia de “Uma noite na lua”, com Gregório Duvivier. Acompanho o trabalho do cara há um tempo (e como meu namorado não lê isso aqui mesmo posso admitir que acho o rapaz a coisa mais linda do mundo depois dele – do meu namorado, claro) e aceitei de bom grado.

Só havia ouvido falar maravilhas da peça, que continua em cartaz no Teatro dos 4, no Shopping da Gávea. Como vai contra os meus princípios dizer “você TEM QUE ______ (insira aqui qualquer verbo)”, digo apenas: se tiver a oportunidade de assistir à peça, se for convidado, ou se não tiver nada melhor para fazer numa noite de terça ou quarta, apenas vá. Se der, se não der tudo bem, cada um com suas prioridades. Ninguém TEM QUE nada, óbvio.

Mas Gregório arrebenta, com o perdão do termo raso e pouco rebuscado. Fiquei impressionada com o rapaz. Que ator esplêndido. A impressão que dá é que o cara transborda tanto talento para além da comédia, para além dessas paradas de stand up, que bota quase todos os coleguinhas do ramo no chinelo. Rola uma melancolia da comédia. Saca um palhaço triste? Ou aqueles filmes que fazem rir mas são de uma tristezinha interna e aí não sabem como classificar quando passa no “Supercine” (essas coisas nunca passam na “Tela quente”) e lascam um “comédia dramática”? É meio assim. Eu gosto à beça dessa linha.

Para quem não viu, a peça é escrita por João Falcão e foi encenada pelo Marco Nanini há 15 anos. Um autor passa uma noite em claro tentando escrever uma peça de teatro depois que sua mulher o deixa (essa seria a sinopse que eu escreveria em uma linha. Lembrem que eu sou a pessoa que fazia sinopses curtas para o roteiro de cinema de um determinado jornal escrevendo aberrações como “Homem tem super-poderes” para “Superman” e “Jovem vive em Paris” para “Um lugar na plateia”. Escrever não só é a arte de cortar palavras como excluir o raciocínio lógico também). Esse é o mote da peça.

Mas o pânico do autor diante da obra, na peça, é sensacional. Em um dado momento, o personagem pede uma ideia a Deus, que lhe dá uma infinidade de luzes (literalmente). “Deus, porque o Senhor me pôs no mundo quando todas as ideias já foram tidas e tudo já foi escrito?”, ele reclama, não exatamente com essas palavras. Não tem um dia em que eu não me pergunte isso. Sobre o que vou escrever? Tudo já foi feito. Tudo já foi dito. Nada mais é inédito. Que saco, hein. Ideia genial, essa fantasia.

Em outro momento, ele fala para a mulher (que não está lá, é quase uma amiga imaginária) que vai fazer a peça, sim, que vai escrever a peça e que ela vai ao teatro ver e que a mãe dele também vai ver e AI MEU DEUS TODO MUNDO VAI VER A MINHA PEÇA SOCORRO.

Pescou? É mais ou menos assim que eu me sinto quando escrevo.

Sério, se puderem assistam à peça.

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