“Não dá para fazer tudo para todo mundo o tempo todo”, diz o moço da farmácia

Há coisa de uns dois meses entrei na farmácia já bem tarde, saindo do trabalho, com uma receita da dermatologista na mão. Estava há quase um mês com o papel na bolsa. Nunca pegava a drogaria aberta (sim, e ela fecha às 22h). Nesse dia eu consegui.

- Oi, boa noite, o senhor tem o Gel X Para a Pele?

Mostrei a receita.

Foi aí que a conversa mudou de rumo.

- Vamos ver… Você tá com acne?

- Não, minha pele tá só um pouco oleosa, acho que é do calor.

- Me diz uma coisa, você é muito ansiosa? Tem crises de ansiedade, palpitação, dor no peito?

- Sou. Muito. Tenho.

- Vou te contar uma coisa. Eu trabalhei durante muito tempo numa farmácia em que o dono era um cara muito bacana, mas sofria muito de ansiedade. Ele perdeu todo o cabelo. Era muito ansioso.

Já estava pensando que se toda essa ansiedade dentro do meu peito se revertesse em menos cabelo não seria tão ruim. Se bem que poderiam cair uns tufos desordenados, eu poderia ficar com uns buracos desconjuntados, e aí estaria mais ansiosa. Melhor não. Melhor ter meu muito cabelo mesmo. Tá bom assim.

Aí o moço continuou:

- Vou te dizer a mesma coisa que eu disse pra ele na época.

- E o que foi?

- Não dá para fazer tudo para todo mundo o tempo todo.

Saí da farmácia bem pensativa. Não dá para fazer tudo para todo mundo o tempo todo. Como eu nunca tinha percebido isso?

(Resposta: provavelmente estava muito ocupada tentando me multiplicar em trezentas para dar conta de fazer tudo para todo mundo o tempo todo. Obrigada, moço da farmácia: o senhor me deu material suficiente para reflexão desde então).

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